O Morumbi é território de um clube perdido
- Vinicius Carvalho
- há 3 horas
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A ocupação do entorno do Morumbi não foi planejada pelo São Paulo Futebol Clube. Ela aconteceu à revelia do clube, empurrada por torcidas organizadas e por um torcedor comum cansado de ser tratado como figurante. O que vemos hoje não é marketing nem projeto institucional. É resistência. É gente ocupando o que sempre foi seu.
Em outros lugares do mundo isso é básico. Na Argentina ou na Inglaterra, o clube não existe sem o bairro. O estádio não é um enclave cercado por grades e carros importados. Ele pulsa todos os dias. No Morumbi, em São Paulo, esse processo só começou agora e não foi porque alguém da diretoria teve uma boa ideia. Quem fez isso fomos nós, torcedores.
A Independente transformou sua sede em um centro político e cultural. Ali não se guarda apenas faixa. Ali se produz atmosfera, se constrói narrativa, se organiza recepção e se articula presença. O que acontece dentro do Morumbi começa fora dele e começa ali. Quem finge que não vê está mentindo.
A Dragões da Real cravou seu espaço no bairro e rompeu uma barreira histórica. Ter uma sede viva e próxima ao estádio sempre foi tratado como ameaça pelas elites do clube e agora é realidade. Não por concessão, mas por insistência. A rua não pediu licença.
A Falange Tricolor sempre foi tradicional e esteve presente, mas durante muito tempo sem grande expressão. Com membros ocupando as redes, trouxe gente nova, jovem e barulhenta. Mostrou que o São Paulo não é um museu de glórias passadas nem um clube envelhecido em seus próprios corredores. Há sangue novo, e ele faz diferença. A cada dia, são mais visíveis nas imagens do estádio.
Nada disso é espontâneo ou politicamente neutro. Por isso, exigir transparência não é ataque, é obrigação. As relações entre dirigentes como Julio Casares e Marcio Carlomagno e lideranças de torcidas uniformizadas precisam ser investigadas. Quantos ingressos são doados? Há repasses financeiros? Existem acordos políticos? Quem usa quem? Um clube democrático não opera na penumbra.
Ainda assim, a contradição é brutal. As torcidas estão fazendo o trabalho que o clube nunca quis fazer. Construíram pertencimento onde a diretoria construiu muros e criaram identidade onde o clube criou distância. Hoje, o entorno do Morumbi respira São Paulo apesar da instituição São Paulo Futebol Clube.
A violência institucional contra o torcedor não está apenas fora do estádio. Ela acontece dentro, especialmente na descaracterização da Geral do Morumbi. O espaço que sempre foi de pressão, proximidade e voz foi sendo tomado por camarotes, salas VIP e experiências gourmetizadas. O exemplo mais escancarado é o camarote do restaurante Raça, que ocupa todo o espaço entre o corredor e o campo, empurra o torcedor para longe do gramado e transforma a Geral em salão de restaurante. O mesmo espaço ainda recebeu uma cobertura improvisada, um verdadeiro “puxadinho”, para que seus frequentadores não se molhem, em contraste com a realidade enfrentada pelo torcedor de arquibancada.
O São Paulo não precisa de mesas, cadeiras e carnes mal passadas. Precisa de gente gritando, xingando e empurrando o time a poucos metros do campo. A Geral do Morumbi precisa de menos salas e mais cadeiras populares. Nada contra os camarotes em si. O problema é a ocupação excessiva de um espaço que deveria ser popular. Se o clube depende tanto dessa verba, já passou da hora de pensar em uma reforma profunda no estádio para que tudo esteja em seu devido lugar.
É preciso devolver ao torcedor a sensação de estar perto, de intimidar o adversário e de fazer o estádio pesar. A Geral não deveria ser espaço de degustação, festas infantis ou buffet livre. Ela é um território de confronto simbólico que foi perdido com decisões tomadas ainda no final da década de ouro dos anos 2000, sob a mesma lógica política que segue no comando do clube.
O problema se agrava quando se observa a transmissão televisiva. Há setores inteiros vazios exatamente onde a câmera enquadra. À direita, camarotes “fitness” abandonados, mesmo com o estádio em lotação máxima. À esquerda, salas ocupam o espaço que antes era a Geral amarela. O clube comemora 40 mil pessoas, mas não consegue transmitir a sensação de estádio cheio. É um fracasso estético, político e futebolístico. Um estádio pode estar lotado e, ainda assim, parecer morto. Isso também é escolha, sempre em nome do lucro — resta saber de quem.
Enquanto isso, o clube formal se fecha cada vez mais. O sócio patrimonial virou instrumento de exclusão social. São dezenas de milhares de reais para ter voz. O setor popular do estádio é tratado como favor. O Sócio Torcedor foi reduzido a um boleto recorrente, sem poder, sem influência e sem retorno. Isso não é acidente. É projeto.
Um clube que impede seu torcedor de decidir seus rumos não é popular. É oligárquico. O Sócio Torcedor precisa ter direito a voto para presidente. Se isso não for possível, que se reduza drasticamente o valor do título patrimonial. Não faz sentido manter Dedé’s, palmeirenses e corintianos frequentando o clube enquanto o torcedor comum permanece alheio à política interna. Sem participação, não existe pertencimento. Existe exploração emocional.
Quem canta, paga e sofre não decide nada.
Quem decide, não pisa na arquibancada.
Nenhuma política séria foi criada para aproximar o torcedor do estádio, muito menos uma ação urbana consistente. Não há escuta real. O clube se comporta como se o Morumbi fosse um produto ocasional, não um espaço vivo. A rua, mais uma vez, desmente essa lógica.
O Morumbi não é mais apenas cenário de jogo. É campo de disputa e hoje, quem ocupa, quem trabalha e quem constrói atmosfera está vencendo.
O clube precisa escolher: ou reconhece o território que o torcedor já tomou, ou seguirá governando um clube cada vez mais distante da própria base.
Porque o Morumbi tem dono.
E não são os conselheiros.
Não são os donos de camarotes.
Não são os sobrenomes tradicionais.
É quem vive o São Paulo todos os dias.
Na rua, na arquibancada, no corpo e na voz.

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